domingo, 16 de novembro de 2014

Lembranças

Estava no quinto dia de transplante. Meus exames estavam melhorando a cada dia. As coisas realmente estavam indo muito bem. Até mais do que os próprios médicos imaginavam.
Mas claro, um transplante não é algo simples. Você faz a cirurgia, se recupera um pouco e vai para casa. Não. É um processo. E um processo muitas vezes longo e lento. Conheço pacientes que ficaram sessenta dias internados. Eu fiquei dezoito.
Mas nesse quinto dia, os remédios já estavam fazendo efeito e eu comecei a inchar. Inchar igual um balão mesmo. Inchei oito litros em em cinco dias. Nada me servia. Grandes coisa. Quem iria me ver com oito quilos a mais. Mas mulher é um ser de outro mundo. E uma coisa que está grudada em mim  e vai comigo até para o hospital é a minha vaidade. Uma mala de roupas e outra de maquiagem.
E não queria que ninguém me visse daquele jeito. A camisola GG do hospital estava um pouco apertada. A sonda incomodava, eu tinha falta de ar por conta do inchaço. Normal, porque nos é dado muito soro. O rim transplantado funcionando bem, gosta de nadar. Nunca me esqueço dessa frase dita por um médico residente que passou para me ver. O rim gosta de água. E água, hoje pra mim, é uma coisa inseparável. Amo tomar água. Amo praia, piscina. E demorar no banho. Meu pecado mortal, principalmente nos dias de hoje. E não via a hora de voltar a fazer essas coisas que amo.
No dia seguinte me pesei. Nove quilos a mais. Então veio o desânimo.
Desânimo misturado com dor, ansiedade, esperança, fé e saudades. Saudades dos que estavam do lado de fora e não poderiam ir me visitar.
Mas eu não estava bem. Tudo me incomodava. Sempre fui uma paciente extremamente paciente. Não reclamava nem das agulhadas da hemodiálise, vou reclamar do que agora?
Mas a tristeza é uma coisa que vem e não avisa. Vem sem hora e data marcada.
Eu me sentia o monstro do lago Ness e minha médica entra no meu quarto.
Eu não estava chorando. Estava soluçando.
- Carol, o que aconteceu, vim trazer seus exames, estão ótimos!
- Sim Dra, mas estou triste. Me sinto feia, gorda e incapaz. Quero ficar boa, voltar a ser o que eu era antes, voltar para o meu lar, cuidar da minha casa, do meu marido. Meu filho está me esperando. A minha cachorra, que falta ela faz. Quero minha vida de volta. Me ajude.
- Por favor Dra, me ajude!
Para eu pedir ajuda a alguém é porque realmente havia chegado ao meu limite.
A conversa foi longa. Chorei como há tempos não chorava.
E depois de muito tempo ela me explicou todo o processo que ainda estava por vir. Alta hospitalar, nem perto. Havia um caminho a seguir.
- Mas você vai voltar ao normal. Esse inchaço, esse incômodo, essa angústia terrível, acredite, Carol, vai passar.
- Confie em mim, faça seu tratamento, tome seus remédios e logo você estará em casa planejando uma viagem maravilhosa com seu marido. O que acha?
- Não deixe de sonhar, Carol. Amanhã estou de volta.
Tirou a roupa de isolamento, as luvas e a máscara, e antes de fechar a porta, ela sorriu e me disse:
- Você pode não achar e não acreditar, mas continua, para mim, a mesma boneca de sempre.
Quanta elegância. Delicadeza. Quando entendimento de vida. De sofrimento. De dor e de nos dar esperança.
No dia seguinte acordei com dez quilos a mais. Estava mais inchada. Mas não desanimei. Fiquei pensando naquela viagem que ela me disse. Será?  Eu aqui, cheia de canos e tubos. Fazer uma viagem.? Máscara, sonda, um corte significativamente grande. Ai senhor, eu pensava, me alivia um pouco...
Passaram-se treze dias, já estava devagarinho voltando a ficar mais parecida comigo e o melhor meus exames. Meus exames eram os melhores possíveis.
E eu estava de alta.
No dia oito de novembro de 2012 eu voltei para casa.
Me lembro dele como se fosse ontem. Estava um dia lindo. O sol...quantos dias fiquei sem vê-lo.
Cheguei em casa meio desarrumada e olhei tudo...minha casa, meu lar. Eu estava de volta.
Fiquei escondida no lavabo da sala esperando meu filho voltar da escola. Ele não sabia que eu havia voltado. Só minha mãe e meu marido.
Ele entrou e a cena, sinceramente não consigo descrever. Me faltam palavras. Estar longe de quem você ama é talvez uma da piores coisas que já inventaram.
Passou um tempo e meu marido veio conversar comigo. Queria me dar um presente. Nossa, eu já havia ganhado meu presente. Os exames, a minha saúde...
- Vamos viajar? Só nós dois?
Como assim, pensei. Viajar? Mas para onde, ainda estou em recuperação. Inchada, pra variar. Minha imunidade está lá no pé.
- Não é pra já. Já conversei com a Dra. É  para daqui seis meses, quando você estiver bem, recuperada. Mas já comprei as passagens. Vai dar tudo certo.
E em maio de 2013 eu estava aterrizando em Nova York. Não me perguntem porque eu amo aquele país. Têm coisas que nos fazem bem. A gente ama e pronto. E ele sabia disso.
Escolheu o destino certo.
Um ano presa na hemodiálise e agora eu me sentia como um passarinho solto da gaiola. Podia fazer o que queria. Andar pelas ruas, comer, sorrir. Minhas roupas já estavam me servindo. Estava acima do peso, mas o que isso importava?
Nada. Absolutamente nada. Eu estava em Nova York, um lugar que sinceramente, não sei descrever. Gosto de observar as pessoas, de andar nas ruas. De andar de metrô. De bicicleta no Central Park. De sentir aquele friozinho gostoso e ter os braços do homem que amo para me aquecer. Da mesma maneira que me aquecia no hospital.
Eu estava livre.
E feliz.
E das quinhentas fotos que tirei, selecionei uma. Poderia ter escolhido várias entre paisagens, restaurantes, ruas. Pratos elaborados, como as pessoas gostam de tirar.
Mas escolhi uma que adoro e que me traz lembranças inesquecíveis. O dia em que fomos de metrô e atravessamos a cidade para assistir Chicago Bulls e Brooklin Nets.
Não foi uma noite de glamour como dizem, mas uma noite em que eu realmente percebi que estava voltando a ser eu.
Torcendo, gritando, xingando e comendo X tudo. Entre milhares de americanos.
Ninguém sabia o que eu havia passado, e nem precisavam saber.
Não havia motivos para que desconfiassem. A minha felicidade não deixaria isso acontecer.
Voltamos de metrô de madrugada. Rindo até chegar ao hotel. Me lembro de dar gargalhadas atravessando a rua as duas horas da manhã.
E eu observando todos ao meu redor. Nova York não dorme. A madrugada não é muito diferente do dia. Parece que a gente nem quer dormir para curtir o ela tem a nos oferecer. E cada um que passava por mim eu sabia que tinha uma história de vida. Suas limitações, suas dores, angústias e felicidades.
Existe vida por trás de uma doença.
Existe vida dentro de cada um de nós.
Basta a gente ter um pouco de paciência e saber esperar.
Tentar olhar um pouco mais para as coisa simples da vida. E entender que o que importa realmente não é o que você tem na vida, mas quem você tem. Mesmo que esse "quem" caiba em uma mão.
Obrigada Dra, a próxima já está agendada.
E eu nunca deixarei de sonhar.
De acreditar.
E principalmente, de agradecer.


Bjs no coração!







quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Borboletas

As vezes o que a gente precisa nessa vida é um pouco de paciência, entendimento e muita, muita sabedoria.    
Não é fácil lidar com mudanças, transformações. O novo é sempre algo misterioso, incerto.
 Mas o jeito é enfrentar. E muitas vezes, aceitar.
Mudar a cor do cabelo, a rotina, a escola do filho. O endereço. Ou a cidade. Mais fácil de resolver.
Mas a mudança e a transformação talvez mais difícil é quando nos damos conta de que alguém ao nosso lado está mudando.
Algo sutil, suave, lento, mas está alí. Você sabe que está alí. E que a única coisa que se tem a fazer é continuar fazendo exatamente aquilo que acredita que deve ser feito.
Ser mãe é talvez uma  das experiências mais gratificantes, puras e mágicas que o mundo criou e nós damos continuidade.
Ser mãe é algo um pouco indescritível. É pura e simplesmente amar. Amar de forma tranquila e serena.
Por isso o amor se difere da paixão. A paixão é explosiva, intensa e limitada. O amor não. 
E simplesmente o classifico como o que sinto pelo meu filho. Calmo e generoso. Duradouro. Eterno.
Como mães, as vezes nos deparamos com situações novas e corriqueiras. Aquela coisa do dia a dia do filho. Os cadernos estão com corações, de todos os tipos e cores. Nomes aparecem. Geralmente dentro dos corações. O olhar muda. A maneira de falar. De agir. De pensar.
O telefone toca mais. Bilhetes. Cartinhas. Festinhas. Desenhos. E corações. Aqui em casa são corações. E muito amor descrito. Os sentimentos colocados de maneira minuciosa no papel. E eu sou chamada para ler. E palpitar. E ter que decidir. Me tornei juíza nas horas vagas.
Olhando para essas novas transformações em nossas vidas, essas mudanças, esse turbilhão de sentimentos, emoções, eu sinto uma dorzinha lá no fundo. Uma pontada que vem. Mas que vai. E tem que ir.
Meu bebê cresceu. Está se tornando um homenzinho. Ainda é criança, mas agora é a fase das descobertas. Das paixões, das desilusiões. Dos choros. E felizmente, ainda das brincadeiras.
Sabe, uma coisa meio tumultuada. Um mar de informações e descobertas.
Quando a gente se torna mãe, a gente sabe lá no fundo, mas bem lá no fundo, que um dia, um longo e distante dia, eles não serão mais nossos. Serão do mundo. Seguirão seus caminhos. Suas escolhas. Seus amores. Seguirão o seu destino. A sua trajetória de vida.
Quando ele era bebe, me diziam para não levá-lo para minha cama, para não mimá-lo, com o agravante de que é e será eternamente filho único. Como se isso fosse um agravante.
Nosso único filho. E único em nossos corações.
Sabedoria é saber lidar com toda essa bagunça temporária. Esse tsunami que vem, permanece por alguns instantes. Mas que passa e vai embora como uma tempestade.
E tudo na vida passa. Por mais que doa. Mas passa.
Como mãe, me sinto profundamente grata por estar criando um ser que se descobre, se manifesta,  se dedica, se declara. E que acima de tudo, pensa no outro.
Eles vão crescer. E talvez um dia partam.
Mas enquanto isso não ocorre, a gente vai rindo, chorando, respirando fundo, rezando.
E acima de tudo abraçando-os todos os dias. Elogiando-os, trazendo-os para dormir conosco de vez em quando.
Ah! Como é bom. Acordar e sentir o cheirinho de alguém que saiu de dentro da gente. Ou não. Alguém que caiu no nosso colo e com o primeiro choro já queria dizer, "mãe eu te amo".
A gente sabe que um dia irão trilhar seu futuro, seus caminhos. Virarão borboletas.
Mas a nossa sabedoria está justamente nesse ponto.
Fazer com que as borboletas sigam seu caminho e que o jardim de casa esteja sempre aberto. E cheio de amor para recebê-los.
- Mãe posso dormir com vocês hoje e que tal asistirmos um filme?
- Claro filho, esse quarto, essa casa e o nosso coração estarão sempre disponíveis a você. Você será sempre o nosso eterno bebê.
- Tá bom mãe, mas fica entre nós, ok?
E assim a vida segue. Entre erros e acertos, sigamos com nosso extintos, sem rotular, sem julgar, nem culpar.
 Apenas ensinar e tentar com a nossa experiência de vida mostrar um caminho seguro e correto.
Vamos viver o hoje.
Porque os filhos partem.
E as saudades ficam.









sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Entre mim e eu

Ontem uma pessoa me elogiou. Disse que eu estava diferentemente bonita. Agradeci, como sempre faço com tudo em minha vida.
E ela ficou me olhando... o que você fez?
Nada, oras. Sou a mesma. De verdade, tirando meu rim  novo, não fiz nada mesmo.
Mas você está diferente...
Talvez você está me enxergando diferente.
Talvez como nunca me observou.
Ou talvez mudei sim, você tem razão. Mas acho que muito das mudanças no meu físico e principalmente na minha alma aconteceram juntamente com as mudanças que ocorreram comigo durante a minha doença.
Durante a minha aceitação.
Não é com qualquer um que posso ter esse tipo de papo abelha, como dizem, mas essa era uma pessoa especial, que sabe escutar, sem cobrar, nem julgar.
E depois de um tempo conversando, rindo, falando bobagem, chorando, nos despedimos.
Voltei para casa e fiquei pensando na nossa deliciosa conversa. Coisa de amiga, de quem nos entende. Coisa de empatia. De alma mesmo.
Passei muito tempo pesando 42 kg. E as pessoas me olhavam torto. Pareciam ter pena de mim. A minha magreza assustava. Eu me sentia um ET. Nada me servia.
Até que transplantei e voltei "ao normal".
E de todo esse processo, essa transformação gigantesca em minha vida, no meu corpo e na minha alma, eu descobri que eu continuava a mesma Carolina.
Só que estava feliz. E saudável.
As aprovações que temos que passar não deveriam depender de ninguém, a não ser de nós mesmos.
Nós é que temos que estar felizes com o nosso eu. Com aquilo que somos. E com o que, em alguns momentos, nos é imposto.
É aquilo que temos e ponto final.
Vivemos em um mundo em que bonito é ter nariz arrebitado, cintura fina, seios fartos.
Sabem de uma coisa?
Bonito é a gente ser a gente. É a gente se olhar no espelho e se aceitar. Gostar do que se ve.
Bonito é a gente entender que as transformações acontecerão. E por mais que lutemos, elas por algum motivo precisam acontecer. E que vão continuar acontecendo.
Entre cicatrizes, fístulas, estrias eu me aceito e me gosto.
Melhorar a auto estima é sempre importante.
Mas que a nossa essência continue a mesma. Guardadinha do lado esquerdo do peito.
Ela é o que nos faz sermos nós mesmos.
Únicos e belos.
Dentro de nós, perfeitos.
Sem photoshop, sem grandes correções.


terça-feira, 7 de outubro de 2014

Primavera


Dia dezenove de outubro de 2012, dia do meu transplante. 
Meu e do meu irmão. As outras datas eram outras quaisquer naquele momento. Mas era primavera e era dezenove de outubro e em poucas horas eu iria transplantar.
Levantei às cinco da manhã. Na verdade não dormi muito bem, fiquei bastante tempo acordada, pensando, rezando, chorando e agradecendo por estar ali e ter uma nova chance. Mais uma chance. O meu irmão estava na acama ao lado. E dormia. O sono dos Deuses, como diz a minha mãe. 
Fiquei olhando ele dormir e fiz uma oração para que tudo desse certo  e que o protegesse. Protegesse meu amado irmão. Não queria que nada de ruim acontecesse com ele. Ele era especial demais, uma pessoa pura, uma alma serena e tranqüila. E com uma família esperando ele voltar para casa. 
São e salvo. Mas sem um rim.
As cinco da manhã entraram no quarto e avisaram que em meia hora levariam-no primeiro para o centro cirúrgico. Primeiro é sempre o doador,  é preparado, anestesiado e então retiram o rim.
Ele tinha acabado de sair do quarto na maca para a preparação.
E a minha mãe entra voando no quarto.
- Onde está o seu irmão?
- Já levaram ele mãe, acabaram de levar.
E ela saiu correndo pelo corredor para encontrá-lo. Queria dar um beijo, dizer algumas palavras, segurar a mão dele. 
Mas ele já estava no centro cirúrgico.
O desespero dela foi tão grande que chamou uma enfermeira e implorou para que pudesse lhe dar um oi. A insistência foi tão grande, e disso minha mãe sabe fazer como ninguém, que eles deixaram apenas ela lhe dar um beijo e dizer "boa sorte meu filho, a mãe te ama, vai dar tudo certo".
E ela conseguiu.  
Um lágrima escorreu no rosto dele. E ele não conseguiu emitir uma palavra.
Minha voltou para o meu quarto chorando.
- Já levaram ele pra cirurgia. Ele estava tão sereno, filha. Ele quer salvar a tua vida. Como eu. E vai dar certo.
- Então comecei a ficar ansiosa. Comecei a andar de um lado para outro no quarto sem poder sair pois já estava em isolamento, fazendo uma medicação muito forte para abaixar a imunidade. Em poucos instantes eles me chamariam, assim que tirassem o rim do meu irmão.
Não era uma espera qualquer. Era uma espera que mudaria minha vida. E traria de volta a mãe, mulher e filha alegre que sempre fui. 
Mas eu só pensava nele. Naquele momento eu esqueci de mim, a minha cabeça só pensava no meu irmão. Tão jovem, tão lindo, dois filhos e uma mulher em casa esperando por ele. Esperando ele voltar com saúde e continuar a vida. Tão saudável, surfista, Palmeirense fanático. Amado, educado, honesto e ainda por cima disposto a salvar a minha vida.
Eu só pensava nele. Aquela pessoa maravilhosa. 
Como poucas que conheci.
Meu irmão...
Bateram na porta:
- Vamos Carolina?
- Eu sabia que havia chegado o momento. Era hora de eu ir. Ir encontrar o que eu mais queria na minha vida, o rim que me tiraria da hemodiálise e me tornaria uma outra Carolina.
Uma Carolina muito mais madura e feliz, essa era a única certeza que eu tinha.
A medicação de baixar a imunidade acabou, e os preparativos começaram. Meu irmão já estava no final da cirurgia,  e eu só queria saber dele. Eu estava aguardando o rim. Mas que o rim saísse dele de uma maneira perfeita e que ele ficasse bem. Era essa a minha oração.
Me levaram para dentro do centro cirúrgico, amarraram minhas mãos, fizeram uma limpeza profunda na barriga, lugar onde vai o rim transplantado. Desta vez do meu lado esquerdo, do lado direito ainda estava o da minha mãe. Preferem não mexer, nem tirar. E com certeza sabem o porque disso. E eu não queria mesmo que tirassem, era um pedacinho dela dentro de mim. Eu em breve estaria então com quatro rins, os meus dois falecidos, o da minha mãe e o  novinho em folha do meu irmão.
Mas eu queria saber dele:
- A cirurgia dele já terminou? Já tiraram o rim? Como ele está? Onde está o rim?
- Calma Carol, ele está super bem, em breve eles vão tirar o rim, colocam num bolsa de gelo, fica lá por pouco tempo e já trazem pra você. Fique tranqüila, ficar nervosa não vai adiantar. Vai dar certo, aliás já deu!
Eu me lembro desse enfermeiro, como o mundo é um mini mundo, o filho dele fez judô com o meu filho e meio dopada ainda consegui dizer isso pra ele. Ele sorriu para mim e segurou a minha mão e eu desabei. Desabei a chorar compulsivamente. Como há tempo não chorava. Mas a mão dele me confortou. Uma mão macia disposta a me acalmar.
Então ele me disse:
-Agora você vai dormir e vai acordar de rim novo, tudo bem? Está feliz?
- Claro. É o que mais quero. E o meu irmão?
E aí eu apaguei. Dormi o sono mais profundo e esperançoso da minha vida. Devo ter sonhado com a Carolina de rim novo caminhando nas nuvens com uns corações em volta. E cachorros também, claro. Sonhadora como sempre fui. Uma pisciana eternamente sonhadora.
Horas depois, eu acordei. A cirurgia deve ter demorado umas cinco horas.
Eu não conseguia falar direito, mas chamei o anestesista:
- Onde está o meu irmão? não sei como ele entendeu.
- Ele está ali, vou levantar devagar sua cabeça e você vai ver como ele está bem.
E eu o vi. Deitado, dormindo, sereno, cheio de anjos em volta dele. Eu o vi. E o vi como queria que ele estivesse.
Eu queria levantar, sair daquela maca  e ir ao encontro dele, abraçá-lo, dizer o quanto eu o amo, que não existem palavras nesse mundo para descrever aquele momento. Aquele gesto. De se doar. De amar. E não pedir nada em troca.
Mas não era possível. E a dor começou a vir devagarzinho. Chamei o anestesista e consegui esboçar um ruído, mas ele entendeu que eu estava com muita dor. Colocou uma bomba de infusão de morfina.
O meu irmão foi antes para o quarto e eu ainda fiquei mais um tempo na recuperação.
Quando eu voltei para o quarto, mesmo com a morfina, com uma infinidade de canos, máscara, cortes, dores e curativos eu avistei o meu irmão no quarto. Ele abanou pra mim e eu comecei a chorar, mas era um choro de alegria. Uma alegria especialmente diferente. Nós dois estávamos vivos.
E o quarto de repente ficou cheio de luz, porque o meu marido e minha mãe também estavam lá. Nos esperando. Felizes, emocionados. 
Só faltava a corneta e as serpentinas. Esses dois quando se juntam transformam um velório num circo.
Era primavera. E tudo tinha dado certo. E a sonda já estava cheia de urina. Há nove meses eu não sabia o que era isso.
E o melhor, eu sabia que não estava sozinha. Uma nova semente estava brotando dentro de mim.
Agora além da minha família, eu tinha um novo rim para cuidar, uma nova vida a seguir.
E um destino a me guiar.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Quem fica

Algumas pessoas partem de nossas vidas. Simplesmente partem.
E sem a gente saber porque. Difícil entender isso. Num piscar de olhos, não estão mais alí. Nos aconselhando, nos ouvindo, nos criticando. Onde estão? Porque foram embora?
A vida muitas vezes é dura, mas nos faz ao mesmo tempo entender o porque de tantas coisas, de tantas perdas.
Como lidar com a ausência de alguém querido, tentar compreender o fim de uma amizade, ou de um amor que parecia ser para o resto da vida...
A vida é feita de ganhos e perdas. Mas porque perdemos?
Talvez as pessoas perdem a graça, o encanto. Talvez cumpriram sua missão. Talvez não falamos mais a mesma linguagem. Não temos mais os mesmos gostos, os mesmos prazeres.
Simplesmente perdeu a graça.
Por um determinado motivo, que lá na frente vamos descobrir, não tínhamos mais sintonia.
Não tínhamos mais aquela coisa que nem a gente sabe explicar. Aquele frio na bariga, aquela vontade imensa de ligar, de estar junto.
Dizem que os opostos se atraem. Eu acredito que para termos amigos, amores, familiares por perto precisamos ter algo em comum. Nem que seja gostar de comer goiaba no pé.
Agumas pessoas com tempo perdem o brilho. Aquela vontade de viver, de continuar a sua trajetória, de agradar, de querer bem. De olhar olho no olho. De dizer eu te amo.
Algumas pessoas vão deixando as coisas morrer aos poucos.
E tudo vai morrendo junto.
Porque nos separamos de alguém?
Pergunta difícil...
E a resposta mais ainda...
Não era para ser. Não eram para permanecer em nossas vidas. Não precisamos estar rodeado de tantas pessoas. Basta estar perto de quem nos faz bem. De quem nos quer bem. De quem não perde a graça.
Por algum motivo partiram. A dor fica, mas também se cura, como um corte de papel na mão.
Porque a gente muda sim. E os nossos sentimentos e emoções também.
Um dia a gente sente raiva. Depois essa raiva vai se transformando, mudando, se remodelando, até que acaba em indiferença. Para mim, é o pior dos sentimentos, mas a indiferença as vezes é necessária. Para nossa proteção. Nosso bem. Físico e mental.
A alma agradece.
Alguns partem, sem a gente querer. Sem a gente perceber e entender.
Mas partem.
A parte boa é que muitos ficam.
E alguns, ficam para sempre.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Luxo

Depois de tantas lambadas da vida, as vezes me pergunto sobre o real sentido da palavra luxo.
Ontem, aguardando anciosamente meus exames, me peguei pensando nisso.
Meus exames. Que coisa... Um monte de informações e números que iriam chegar por um telefonema da minha médica. E ela iria me dar o resultado. Fiquei sem dormir. Um certo exagero?
Não sei. Imagine esperar anciosamente por uma ligação que não chega. O telefone simplesmente não toca.
Imagine.
Mas é assim mesmo. Surge o medo. O inesperado. O improvável. O desconhecido.
O medo de voltar para a hemodiálise. O medo de ficar sem tomar água. O medo de acordar as cinco da manhã e ficar quatro horas presa em uma máquina. Exagero? Talvez. Mas passa tanta coisa pela cabeça...
Nossa mente é uma formiga no meio de um bolo...
E o telefone toca. Meus exames. Minha médica. Os números. O tão aguardado resultado.
Atendo? E se estivessem ruins? Toca novamente.
Mas eu sou forte e guerreira como sempre fui. É assim que as pessoas me chamam. Claro que eu iria atender.
O coração saindo pela boca e escalando o Everest.
E eu escutei uma voz doce e feliz.
O rim que ganhei de meu irmão está forte, seguro e funcionando. Era para ser meu. Tenho certeza disso.
Quer luxo maior do que receber esse telefonema depois de uma ansiedade gigantesca que quase tomou conta de mim?
Chegar em casa cansada e ver que tem um pudim de leite maravilhoso te esperando. E  o melhor, poder comer sem culpa. Poder comer tudo o que se quer. Tudo o que tem potássio, fósforo, sódio. Toda a tabela periódica....
Tomar um copo de água. Até dois. Hoje eu posso.
Luxo para mim, hoje, nada a tem a ver com coisas relacionadas a dinheiro. Mas sim com sentimentos, emoções. A não ser viajar. Essa sim é a única coisa que compramos e nos enriquece. E nos enobrece.
Luxo é passar um final de semana sem celular tocando, carros buzinando e mil pessoas falando.
É tomar uma xícara de café em uma varanda.
É ter uma vida digna.
Ter saúde
Ser do bem.
Vestir uma camisola cheirosa.
Passar Giovanna Baby.
Ver o filho crescer.
Recolher um animal de rua.
Escrever um livro.
Luxo é dormir com a consciência tranquila.
É despertar feliz, mesmo sabendo que o dia será difícil e que os problemas ainda estarão lá.
Luxo é conseguir encontrar alegria nas pequenas coisas da vida.
Luxo é se olhar no espelho e gostar do que se ve.
É gostar de ser quem a gente é.
Sem querer ser ninguém diferente.
Diferente de quem a gente mais tem que amar e admirar.
A gente mesmo.

domingo, 20 de julho de 2014

As almofadas

Sempre gostei das pessoas doces. Que falam baixo. Que não discutem. Que te entendem com os olhos. E te recebem com um abraço. Com ternura. Com amor. Engana-se quem acredita que para me consolar ou me deixar feliz, precisa comprar um presente caro ou dizer mil palavras. Muitas vezes um abraço sincero resolve. Ou uma simples frase: "Estou aqui tá?"
Dizem que signos nada dizem sobre a gente. O meu sou eu em pessoa. Sou uma pisciana eternamente sonhadora, sensível, doce, confusa, romântica. Adoro a casa perfumada, vestir uma camisola de seda, de passar Giovanna Baby. E de ter as almofadas com os babados no devido lugar. Gosto de flores. De cor de rosa. Gosto de ser pisciana. Gosto de ser quem sou.
Mas uma pessoa extraordinária cruzou meu caminho. E me casei com ela. Uma pessoa diferente de mim. Fantásticamente diferente. Super prática, pé no chão. Sem aquele famoso nhenhenhém e o chororô bem típicos meu. Uma pessoa capaz de esquecer uma data comemorativa. E não perceber se as almofadas estão com os babados no devido lugar.
- Que almofadas? Diria.
Mas uma pessoa capaz de me surpreender ficando trinta intermináveis dias em um quarto de hospital  ao meu lado. sem pressa de ir embora. Me elogiando. Me fazendo rir. E o melhor, me aceitando.
A minha vaidade... naqueles momentos de agonia eu deixei de lado aquela Carolina, porque a máscara esconderia tudo. O batom, o blush. A minha vaidade. Estava inchada. Cheia de canos e tubos. Cicatrizes, sondas. Morfina na veia. Uma camisola terrível de hospital. Mas ao meu lado estava uma pessoa disposta a me enxergar assim, de um jeito diferente. De um jeito que ele não estava acostumado a ver. E me aceitar. E eu a ele. E sabe de uma coisa? Nesses dias eu vivi um conto de fadas. Só que o príncipe não era perfeito, nem tinha cavalo. Nem mandava flores. E a princesa estava em uma cama de hospital. Eu vivi um conto de fadas sim. Às avessas.
E com o tempo a gente aprende que as diferenças se tornam muito pequenas diante das pedras que a vida coloca em nosso caminho. As diferenças se anulam nas dificuldades e se tornam insignificantes.
Somo seres humanos. Somos diferentes. Somos um perante o ciclo da vida.
Pensamos diferentes. E o formidável disso é que aprendemos a lidar com o outro a partir do momento quando entendemos como esse outro funciona. E funcionamos de um jeito tão diferente e especial. Nossa mente, nossos olhares, as batidas do nosso coração...
Respeito e tolerância são a chave para que possamos viver e conviver com esse mar de diferenças. Diferenças que existem entre casais, irmãos, amigos. Entre qualquer um que ultrapassa nossa trajetória de vida.
A partir desse momento talvez conseguimos encontrar um equilíbrio e uma paz interior ainda maior.
Ele adora escutar Jota Quest e eu Living at Midnight, do Judas Priest.
Ele adora falar, eu escrever.
Ele gosta de cerveja e eu de água.
Eu adoro as almofadas arrumadas e ele os papéis espalhados.
E assim a gente se respeita.
Arrumando, desarrumando.
E no meio da bagunça.
A gente sempre se encontra.
E se ama.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Meu mundo virtual

Sinceramente, não me lembro de ter lido tantas coisas sem argumentos sobre internet como nos últimos meses. As frases prontas das redes sociais viraram um tsunami virtual. Só que muitas vezes essas frases não expressam aquilo que as pessoas realmente pensam ou sentem. Talvez é como elas gostariam de pensar. Ou ser. Ou sentir. Mas nada é tão simples assim e o nosso pensamento é uma máquina que nunca descansa. Nem pisca.
Eu tenho percebido que alguns se importam demais com o que o outro pensa do que com aquilo que se passa dentro de nós. E que tudo gira em torno da inveja. E que se faça a campanha pela vida, "cada um cuida da sua".
Se esse realmente fosse o pensamento verdadeiro, jamais essas pessoas poderiam estar em uma rede social. Porque uma rede social não é só para mim, nem para você. É para milhares de seres. Seres que a gente nunca viu e nem sabe se existem de fato. Seres que são diferentes de você, de mim. Pessoas que pensam e agem de maneira  completamente diferente. Mas que por algum motivo estão acessando o mesmo lugar que você e eu ao mesmo tempo.
Se as pessoas realmente acreditam que a inveja tem facebook e instagram, o melhor é não ter nenhum dos dois. É um opção. Um pouco simples, apesar da gente sempre querer complicar as coisas. Saiba usar. É como um cartão de crédito. Você possui uma ferramenta rica nas mãos, mas precisa saber administrá-la. Caso contrário, o tombo pode ser grande. E jogar a sua vida amorosa e profissional no ventilador tem um preço alto. Muitas pessoas, pode ter certeza disso, vão te apoiar e te elogiar. E acredito que seja muito verdadeiro. Outras vão dar um print na tela e mandar para um amigo rindo de você. Outras vão te criticar.
Mas se a gente parar para pensar, a inveja está por todos os lados. Está no vizinho, na padaria, na reunião da escola do filho. Está em lugares onde menos imagianamos. As vezes, até na família. E não é só a inveja. É o rancor. A falta de amor com o outro. O ciúmes. A indiferença. Um turbilhão de sentimentos que muitas vezes não está visível, mas está presente no coração de alguém.
E uma coisa que infelizmente é natural do ser humano é criticar. Algumas pessoas nasceram para criticar as outras. Porque elogiar é tão difícil e criticar é fácil? Ainda tento encontrar respostas para essa pergunta. Mas eu sempre procuro acreditar que existem pessoas mal resolvidas. E nem sempre elas querem ser assim. A vida as vezes também não colabora. O que importa mesmo é saber quem somos e quais são nossos sonhos, planos e pensamentos perante a vida que levamos. E sermos felizes com o que somos e não com o que temos, no sentido material. E não ser infeliz porque eu não tenho tenho o que o outro tem. Claro, quem nunca sentiu uma pontinha de inveja daquela amiga que acabou de chegar de St Barth toda bronzeada? Ah desgramida, e eu aqui branca igual o reboco da parede! Mas isso é natural e passa. Pelo menos deveria passar.
As redes sociais viraram alvo de ironias e desavenças. Porque escrever é mais fácil do que falar. Quem xinga pela internet é porque muitas vezes não tem coragem de falar olhando nos olhos.
Mesmo assim eu ainda acho uma diversão. É para isso que tenho. Me divirto, choro, sinto saudades daqueles que estão longe (alô primos amados de Ribeirão Preto, Campo Grande e Anápolis).
Eu ainda acredito que vale a pena ter uma conta. Por diversão. Bem por isso.
Só com as crianças a atenção deveria ser dobrada. Elas ainda não têm a malícia virtual e maturidade para lidar com esse mar de sentimentos e informações.
Mas nós, adultos, temos.
E os chatos? E os invesojos? E os Corinthianos?
Deixem eles para lá. A vida também seria sem graça sem eles. O que seria de um Palmeirense sem um Corinthiano?
E que bom que alguns levam na esportiva. Essa é a essência da vida. Tirar proveito daquilo que é estressante e dolorido. E rir. Nem sempre é fácil, mas vale a pena tentar.
Todos somos chatos em alguns momentos de nossas vidas. Todos temos momentos de tristeza, de sonhos. Até de loucura. Somos seres humanos. Com sentimentos. Dores e frustrações.
Vamos viver a nossa vida, nos preocupar com aquilo que somos e torcer pelos outros. Sempre.
E elogiar.
Elogiar faz bem ao coração e a gente ainda faz o outro feliz.


sábado, 7 de junho de 2014

Um bom papo

Estava aqui tirando o pó do blog e resolvi voltar a escrever. As vezes faz falta, dá saudades. Quando fico muito tempo sem escrever parece que estou devendo algo a mim mesma. Escrever para mim, é como tomar um banho depois de um dia cansativo e estressante, principalmente quando estamos cercados de pessoas negativas e fracas espiritualmente, ou tomar um café da tarde com uma amiga naquele dia em que nada parece se encaixar, parece que estamos em um abismo prestes a desmoronar.
Escrever para mim é algo surreal, porque sempre fui mais do escutar do que falar. Então a escrita virou uma forma de me manifestar, de dizer algo que muitas vezes não quero verbalizar. Escrever, na verdade virou uma terapia, uma maneira de colocar para fora frustrações, sentimentos e alegrias.
As pessoas que falam muito, que querem ser sempre o centro das atenções, que gostam de receber elogios constantemente, que têm a necessidade de estar com a melhor roupa, de ter a caminhonete da vez. Essas pessoas nunca me atraíram e continuo na mesma. Não gostando muito de suas companhias.
As vezes só o que a gente precisa é de um bom papo, aquele sem frescura, sem cobrança, de preferência com algumas gargalhadas e alguma bobagem. A vida com bobagens e fofocas corriqueiras deixam ela muito mais leve, doce e divertida. As pessoas cultas demais, aquelas que querem te enfiar o livro do Gabriel Garcia Marquez a goela baixo, sim porque enquanto era vivo escutava pouco sobre ele. Mas depois que partiu os seus livros viraram o ó do borogodó. O que dizer então das que só falam em dietas, das empregadas ou do coitado do marido que gosta de futebol?
Há dois meses tenho levado uma vida turbulenta. Pedreiros, pintores, marceneiros. Ah e os encanadores...e os canos vem junto. E como a gente leva cano. As vezes não é só deles não, é da vida mesmo. E de pessoas próximas. A gente leva cano de quem a gente menos espera, ou mais espera. Tanto faz.
E no auge do meu estresse com esse tipo de pessoa, eu atendo a porta. Era o marido de aluguel, aquele que pindura, instala, desentope, costura, aconselha. Já era sua terceira visita em nossa  casa e ele entra com um sorriso largo e me entrega um presente.
- "D. Carolina, um presente para você e seu esposo João. Para curtirem a casa nova. Vocês são uma família linda e merecem ser muito felizes. E os seus exames deram bons? Lembre-se sempre que a sua saúde está em primeiro lugar. Depois vem o resto. E a gente dá um jeito não é?"
Ou parcela no cartão, pensei em continuar....rsrs
Eu sinceramente fiquei estarrecida e até sentei. Mal conseguia abrir o pacote. Fiquei pensando naquele Sr. que trabalha arduamente das sete da manhã as sete da noite. Aquela pessoa sensível. Que lembrou de mim. Do meu marido. Do palmeirense, como chama meu filho. E quando percebi estava diante de um ser humano. Com sentimentos, com vontade de se doar. De escutar.E de me ajudar.
Agradeci pelo presente e pela pessoa que é. Gente que não se encontra na esquina. O lado ruim disso é que a gente passa a se acostumar com as pessoas desonestas e sem caráter na vida, pessoas que nos sugam e querem o nosso "dinheiro". E quando você se depara com uma pessoa assim, acaba achando novidade. Triste isso.
As vezes o que a gente precisa mesmo é uma boa companhia, um bom papo. Umas boas gargalhadas.
Tem coisa melhor do que rir da vida? De conviver com gente divertida. Sem grandes assuntos políticos, econômicos e sociais. Adoro o Ricardo Amorim do Manhattan Connection. Do Diogo Mainardi também. Mas ultimamente tenho me cansado um pouco deles e preferido assistir Chaves ou aquele programa Ta no Ar, que morro de rir.
Porque não dá para levar a vida a sério demais. Acho que é por isso que adoro estar com meu marido e minha mãe. Porque a gente só ri. As vezes chora, mas as bobagens, as piadas, as lembranças engraçadas, principalmente as do meu avô Lilo que era um contador de histórias. Isso realmente vale à pena.
Eu dormia escutando as histórias dele. As bobagens que ele contava. Dos personagens que ele inventava. O Didio panceta, o Selegato, o Toni expulsa. As vezes eu não dormia, porque sempre tinha um bicho no meio da história e eu ficava imaginando aquele bicho atrás do meu avô.
Mal acabo de contar e já começo a sentir saudades desse tipo de gente.
Gente que faz a gente feliz.
Ainda não inventaram melhor remédio do que sorrir. E contar histórias. Ou inventar. Como preferirem.
A vida muitas vezes é dura, mas a gente pode melhorar.
E falar bobagens é uma delas.
Melhor assim.


quinta-feira, 15 de maio de 2014

A arte de não saber o que se quer

O mundo está cheio de covardes. De gente mal resolvida, de pessoas egoístas e fracas espiritualmente.
Ontem aguardando um atendimento, entra uma senhora já aparentemente nervosa. Começou a atacar a pobre da moça que tirava senhas e foi falando palavrões até sentar. E se sentou atrás de mim. Que sorte a minha. E continuou falando, falando, xingando o local, a moça da senha, aí incluiu o Brasil, lógico. Xingar o Brasil virou moda, virou clichê já. Virou rotina e até com isso nos acostumamos. Eu não. Não me acostumo com isso. Não consigo mais escutar isso. Me dói e me fere a alma. Amo isso aqui. Amo minha terra.
Voltando a mulher perturbada...olhei para trás e pedi gentilmente que parasse de falar palavrões, que fosse lá na rua e colocasse seus males internos para fora, porque eu não estava naquele lugar para ouvir aquilo. E fui agredida. Verbalmente agredida.
Que eu era uma pessoa acomodada, que aceitava tudo, e que por minha culpa o Brasil não iria para frente. Que eu era uma mera patricinha.
Claro que nada disso foi dito de forma educada, calma. Foi aos gritos. E de uma maneira um tanto violenta.
Então me levantei, com essa elegância e paciência que herdei de minha mãe. Ajeitei meus longos cabelos loiros, arrumei minha Louis Vuitton, e lhe respondi com a maior tranquilidade:
- A senhora realmente acha que sou uma Patricinha? Pois é, pago meus impostos em dia, minhas contas, ajudo pessoas todo inverno, retiro cachorro das ruas, pago as clínicas e arrumo donos. Dou emprego a uma pessoa que cuida de cinco sobrinhos. Faço doações e cumpro meus deveres como cidadã. Ah e antes que eu esqueça, sou doente renal crônica, fiz dois transplantes e um ano de hemodiálise. Um dia a senhora vá lá na Pró Rim, faça uma visita, faça uma doação, eles precisam. Tem muita família carente. Faça uma sessão de hemodiálise e depois me chame desse termo tão pequeno que a senhora me chamou....
A sala ficou em silêncio e não sei porque ela foi embora. Talvez necessitava ir a outro lugar xingar as pessoas e principalmente o Brasil.
Ah o Brasil....meu amado Brasil. O que você virou...um centro de bombardeio de pessoas que entraram na onda, de pessoas que na maioria das vezes não sabem o que falam, que vieram ao mundo para criticar, ofender, muitas vezes sem qualquer tipo de argumento. O Brasil está uma bagunça sim. Temos inflação, temos saúde precária (em alguns locais), falta de verbas para a educação, que para mim, é o carro chefe de um país. Professores mal pagos, senadores muito bem pagos. Tudo isso é muito triste e lamentável.
Mas temos um país cheio de terras, rios, não temos furacões, tsumanis, guerras religiosas. Temos a Amazonia, temos um povo solícito. E me desculpem eu gosto do jeitinho brasileiro, não aquele em que se usa o outro em benefício próprio, mas sim aquele em que usamos o coração para resolver algo. Somos um povo caloroso, alegre.
Eu, sinceramente tenho orgulho do Brasil. Não me interessa o que os Alemães pensam ou o que os Franceses digam. Ou que pensem que aqui tudo é errado e a capital é o Rio. Danem-se o que os outros pensam da gente. E se querem saber, não venham para a copa mesmo. Fiquem em seus países tão ricos, sem problemas e tão produtivos. Não venham. Mas se vierem vão ver que aqui é muito bom. As nossas praias são belíssimas, as igrejas, a nossa comida. Os nossos doces. Duvido que os chefes franceses sabem fazer cuca de farofa. E o nosso feijão? E a mandioca?
Aqui a gente é feliz sim.
Temos problemas, claro que temos. Até o Eike tem. Pouco ou muito dinheiro também dá problema.
Sabe o que eu acho?
Que reclamemos menos, agirmos mais como cidadãos e dependemos menos do governo, é difícil, mas dá.
Não viemos ao mundo para reclamar, mas para sermos felizes.
Problemas sempre existirão. Em qualquer lugar do mundo.
E quem realmente acha que o Brasil é uma porcaria e não tem conserto, pegue um barquinho pelo México e chegue onde quiser. Talvez lá você seja feliz limpando banheiro de algum restaurante.
A felicidade está dentro de nós.
Difícil tarefa essa.
Mas se tentarmos, com nosso jeito amável brasileiro em ser, acredito que dá.
Mas só se fizermos mais. Reclamar na poltrona de casa digitando e compartilhando no facebook não vai resolver o problema do Brasil. Vai ficar no papel. E será esquecido.
Use as suas armas. O voto é uma delas. E muito poderosa.
Somos brasileiros, não somos?
Então mãos a obra!


domingo, 6 de abril de 2014

Comigo mesma

Era uma tarde de café.
E uma pessoa me perguntou o que eu mais gostava de fazer.
Gosto de ficar em casa, respondi. Sério? Ela ficou estarrecida com a minha resposta.
Eu pensei em várias coisas na verdade. Pensei em brigadeiro, na minha escrita, na minha cachorra, na minha família, conversar com a minha mãe...pensei em tanta coisa que gosto, mas sinceramente gosto é daqui. Do meu canto, das minhas coisas. Do meu lar.
E da maioria das coisas que gosto de fazer, consigo fazer aqui mesmo.
Gosto dos cheiros daqui. Da vela de baunilha, do inseparável Giovannna Baby, da cebola frita com alho, do cheiro do homem que amo.
Sair de vez em quando é muito bom e faz bem, mas gosto mesmo é de voltar para casa. Para a minha vida. Para a minha cama.
Amo viajar, uma das únicas coisas que compro e me enriquece. Mas amo voltar para casa. Arrumar as coisas. Lavar as roupas. Organizar fotos. E as lembranças.
Vivemos em tempos em que ter um monte de amigos é super legal e divertido, e que viver rodeado de pessoas que muitas vezes nada têm a ver com você também é.
Nada contra a diversão, mas cá entre nós, quanto mais gente mais confusão. Em família também é assim, quanto maior mais problemas. E são tantos, ciúmes, ganância, desavenças, falta de afinidade, inveja e principalmente dinheiro. Deveria ser a solução do mundo moderno. Mas não é. Se briga demais por ele, seja por muito ou por migalhas. As pessoas de hoje brigam e se matam por migalhas. Triste isso. E desnecessário. Vai entender...
Gosto da companhia de algumas pessoas sim, principalmente das que sabem escutar. Porque falar todo mundo quer. E sabe. E entende. Vinho então, dietas nem se fala. Mas saber ouvir é para poucos.
Eu convivi muito tempo comigo mesma. Eu as vezes brinco com meu marido e meu filho que passei mais tempo sozinha em hospitais do que em casa. Isso virou uma piada gostosa entre nós, sem sofrimento, nem dor de relembrar um passado tão próximo. Que foi muito dolorido, mas que foi superado e que bom que podemos rir de algumas passagens engraçadas mesmo em um lugar chamado hospital. Fui feliz lá em alguns momentos. E se querem saber, tenho até saudades.
Um transplante requer cuidados extremos, higiene máxima, muita paciência, dedicação. E consciência. Consciência de que eu teria que ficar sozinha em alguns momentos. Em muitos, mais do que imaginei. Na sala de cirurgia era eu e a minha fé. Na hemodiálise era eu e a máquina. No pós transplante eu só podia ver três pessoas, meu marido, meu filho e minha mãe, sem abraçá-los, nem beijá-los. E de máscara. Vivi em uma bolha. Durante seis intermináveis meses. Mas foi necessário. E algumas pessoas que eu esperava me escutarem em uma fase tão difícil, não tiveram essa atitude. Ou talvez tempo. Coisa complicada de se entender essa vida moderna onde nada nem ninguém tem tempo. Mas entendo. Sempre fui compreensiva e faz parte da minha essência ser assim. Meu perfil não me cabe julgar ninguém, pois cada um vive conforme as suas possibilidades perante a vida.
E com isso, aprendi entre coisas boas e ruins, que minha melhor companhia era eu mesma. Passei a me entender mais, respeitar meus limites, saber dizer não, conhecer meu corpo. E aceitar as cicatrizes. Talvez essa foi a parte mais difícil, as cicatrizes, não tanto as físicas, mas as da alma. Essas doem mais.
Comecei a me cuidar mais, me aceitar mais. Me aceitar do jeito que sou. Sem correções, nem mudanças.
Convivi comigo mesma durante muito tempo e para minha surpresa, foi e está sendo uma experiência inigualável.
Passei então a fazer escolhas, porque muitas coisas eu não poderia fazer. Ter uma doença crônica como a minha não significa que a vida acaba, pelo contrário, me sinto mais determinada, forte, divertida e grata, mas tenho minhas limitações. Não me permito mais ir além do que não consigo ir. Não consigo dizer coisas que não sejam verdadeiras e não consigo viver uma vida que não é minha para me inserir em uma outra.
Aí veêm as escolhas.
Não trabalhar fora foi uma decisão difícil, mas acertada. Uma escolha de vida. E uma recompensa que não imaginei que viria tão cedo de duas pessoas que mais amo na vida. As quais nunca me deixaram parar de sorrir. Que se transformavam no Palhaço picolé para me verem feliz. Ficaram em casa comigo os seis intermináveis meses. Sem sair. Nem passear.
Não sinto falta de viver rodeada de pessoas, apesar de ter amigas que não vendo, não troco e não alugo por nada nesse mundo. Não adianta insistir hehe.
Sinto falta de mais verdade na vida. De mais descobertas voltadas para si. De de mais risadas, gratidão. Aprenda a  amar a si, assim você compartilha amor. Enquanto alguns não prosperam, eu prefiro continuar curtindo a minha melhor companhia.
Na minha casa.
Comigo mesma.




terça-feira, 11 de março de 2014

Para que serve um dez?

Um choro hoje me sensibilizou. Pegar meu filho na escola e o encontrar chorando não é normal. Não é normal para uma criança ativa que quer sempre ser a última a ir embora de tudo, principalmente da escola e das festinhas. Ele é quase sempre confundido com o aniversariante das festas, porque a animação é tão grande que até eu às vezes me confundo. Ele gosta de todos, brinca, pula, pinta, joga, luta, ri. Uma vez uma professora do maternal me perguntou "Como é o João Marcelo? Me fale um pouco sobre ele". Bom, eu sou meio mãe coruja daquelas que grita nos jogos e nas lutas dele, eu acho ele o máximo, lindo, querido, meio teimoso....mas eu iria ficar horas falando dele e não tínhamos tempo para isso, infelizmente. Então olhei para ela e disse. "Ele é intenso. Em tudo o que faz". E já nas primeiras aulas ela me encontrou no pátio e me disse " entendi o que você quiz dizer aquele dia". Gosto de quando falo a mesma língua da pessoa ouvinte, uma questão de empatia, que infelizmente não temos com todos. E nem todos tem essa capacidade de ouvir. Mas aquela professora tinha.
E ele realmente é muito alegre, e encontrá-lo chorando na escola foi para mim uma surpresa. Ele não queria olhar para mim, uma vergonha e um choro sentido. Um sentimento diferente estava dentro dele. E aí eu percebi algumas crianças saindo felizes com um papel na mão. Lembrei da prova. A prova de Matemática. Ele deve ter recebido a prova. E ele tinha me falado que não tinha ido bem. Fui correndo ao encontro dele porque coração de mãe não falha. E eu ouvi:
- A prova mãe, me desculpe. Por favor me desculpe mãe.
A minha reação foi tão rápida e eu não deixei ele terminar, abracei-o como se há anos não o visse.
- Não me peça desculpa por isso mais tá? Vamos almoçar?
-Sim, mas a prova mãe, eu quero esquecer essa prova.
A velha e sempre história de esquecer....tarefa difícil essa. E dolorida.
Mas como as crianças estavam em volta dele, uns querendo consolá-lo e outros mostrando a sua nota (a deles), mães felizes, e eu resolvi tirar ele daquela situação e levá-lo para casa. Aos prantos. Ele estava aos prantos.
A conversa em casa não foi longa, mas suficiente para que ele entendesse o que eu estava tentando lhe dizer. E o quanto eu queria que ele carregasse as minhas palavras para a vida adulta dele. Para o resto da sua vida, sendo bem sincera.
Que ele ainda é criança, nem pré, nem pseudo, nem quase, nem nada de adolescente. Ele ainda é felizmente uma criança. As responsabilidades existem. Mas só se é criança uma vez na vida. Nunca mais. A vida segue, crescemos, nos tornamos adultos. E envelhecemos. A nossa essência, aquilo que somos continuará sempre a mesma, desde criança, mas as nossas atitudes e a nossas as responsabilidades mudam com o tempo. E como mudam.
E ele já têm muitas responsabilidades, acho que até demais, mas elas por algum motivo, precisam existir. As crianças precisam de responsabilidades em casa, na rua, na escola. Em qualquer lugar. De rotina. De horário. De limites, principalmente de limites. Mas mesmo assim enxergo ele como uma criança. E criança na minha visão tem que brincar. Tem que aproveitar a infância. Dá pra conciliar com as responsabilidades sim. Mas nessa fase, menos apostilas e mais brincadeiras. Mais esconde esconde, mais piscina, mais pés descalços, mais video game (porque não, na medida certa faz bem à criança), mais bola, mais boneca. Mais diversão.
E tirar uma nota baixa significa frustrar-se. E frustração faz parte da vida. Nos decepcionamos, tiramos notas baixas, sofremos por amores passados, caímos, mas levantamos depois. A vida segue.
Eu não quero que meu filho seja o primeiro da sala, o mais inteligente, o que tira as melhores notas. Eu quero que ele saiba que a vida é feita de alegrias, de momentos divertidos, mas também de perdas e frustrações. E temos que ensiná-los a lidar com esse turbilhão de emoções e sentimentos.
Não quero que ele tire dez nas provas. Pra quê? Pra que serve um dez? Pra mostrar inteligência e sabedoria?
Ou será que a nota é mais para os pais do que para os próprios filhos?
Para ser alguém na vida você não tem que ficar tirando dez meu filho, você precisa internalizar que o estudo é muito importante e quem sem ele você dificilmente conseguirá algo de sucesso. E queremos que nossos filhos tenham sucesso. Queremos ter orgulho deles. Mas que antes disso tenham uma infância digna de uma criança.
Os ídolos do meu filho, até por ele amar esporte são o Le Bron James e o Aaron Rodgers. Pena que ele não conheceu o Senna. Talvez seria seu ídolo, como é o meu. Mas ele admira esses em especial, observa seus movimentos, como jogam, e como são disciplinados. E de onde eles vieram? De universidades. Sem estudo, meu filho, eles não chegaram onde estão. Precisaram estudar. E muito.
Mas para que você chegue lá tem muita água para rolar. E eu prefiro ainda ficar gritando teu nome na arquibancada como uma doida e quase tendo um ataque cardíaco cada vez que você vence por Ippon ou perde um gol.
Prefiro ficar gritando do que te ver em uma mesa de escrivaninha debruçado sobre livros a maior parte do tempo.
Que seja o Pequeno Príncipe então. Será teu próximo presente.
Mas mesmo assim prefiro torcer por você nas quadras, não nas provas.
Orgulho de você.
Que quase não cabe dentro de mim.


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Vivendo e esquecendo

Li um texto tempos atrás interessante que me fez refletir. Tudo o que eu leio e releio é porque me faz pensar. Pensar de alguma forma sobre aquilo. De que forma lidar com aquilo, de que forma aprender com aquilo e de que maneira aquilo poderá fazer com que eu compreenda melhor as pessoas e o mundo que me cerca.
O texto falava sobre aprender a esquecer.
O filho precisava entregar o bico para o Papai Noel e o entregou. O Papai Noel foi embora e chegou a hora de dormir. O bico. Ele precisava do bico, mas não o tinha mais. Então ele olha para o pai com o rosto cheio de lágrimas e diz:
- Pai, me ensina a esquecer?
Esquecer muitas vezes é dolorido, mas necessário, porque a vida é feita de perdas. Perdemos tanta coisa que nem sei... infância, amores, pessoas queridas. Perdemos o juízo e até brinco no mar. Quantas duras e irreparáveis perdas.
Mas elas muitas vezes nos fazem crescer e amadurecer. As perdas nos fazem enxergam além do perdido.
Por algum motivo foi perdido. E algumas perdas não voltam mais. Simplesmente não voltam. As vezes lutamos para trazer o perdido, mas o melhor é que aprendamos a lidar com elas.
Nunca me esqueço do dia em que meu médico virou para mim, depois de olhar meus exames, meus péssimos exames, suspirou e disse:
- Carolina, é uma derrota para eu te dizer isso.
A sala ficou em silêncio, dava para ouvir as batidas do nosso coração.
- Você perdeu o rim transplantado da sua mãe. E começa hemodiálise semana que vem.
Eu devaniei por alguns segundos tentando internalizar aquilo que me estava sendo dito e depois de um tempo comecei a chorar. Não era um choro qualquer, era o choro desesperado de uma perda irreparável, de algo que não voltaria mais. Nunca mais. O rim que me foi doado pela minha mãe, minha alma gêmea, estava agora dentro de mim sem vida.
Como esquecer isso? Como lidar com essa dor? Com essa perda?
Não foi fácil. Doeu mais que cortar o dedo com papel. Mas eu aprendi a esquecer. A vida me ensinou a esquecer. E a seguir meu caminho. Minha trajetória. Me ensinou também o que significa dor e superação.
As vezes precisamos esquecer pessoas, coisas, sentimentos.
E guardar as boas lembranças.
As vezes faz bem. Fortalece o corpo e a alma.
É bem assim mesmo.
As vezes é bom esquecer.